Faro, primitivamente
denominado Ossónoba, terá surgido por volta do século VIII a.C., durante
a colonização fenícia do Mediterrâneo Ocidental. Tinha então um
carácter de entreposto comercial, integrado num vasto sistema
mercantilista baseado na troca de produtos agrícolas, pescado e
minérios, situação que se manteve nos períodos grego e cartaginês.
Formação (século VIII a.C. - século III a.C.)
A situação dos terrenos em que assenta a actual cidade de Faro era
então diferente. O nível médio das águas do mar encontrava-se dois a
três metros acima do actual, originando uma linha de costa muito
recortada e inundável. A configuração deste território era resultante de
um sistema de colinas ou morros (o da Sé, onde se estabelecera o
referido entreposto, o dos Artistas, Santo António do Alto e o conjunto
de colinas que vão de São Pedro ao Alto Rodes, designadas por Alto da
Caganita, Alto da Atalaia e Alto da Esperança), separados por canais ou
ribeiras e sujeitos, com as marés, à subida e descida das águas do mar.
Dos canais, destacamos uma linha de água principal que corria desde a
actual Ribeira das Lavadeiras, percorrendo a Estrada de São Luís até ao
Lethes, daqui para a Praça Alexandre Herculano onde formava um lago -
Alagoa - bifurcando, junto ao palácio Belmarço, para contornar o morro
da Sé por ambos os lados.
De entreposto a urbe (século III a.C. - século VIII d.C.)
Durante este período ocorreu a estruturação da Vila-a-Dentro (núcleo
primitivo), expansão extramuros em dois núcleos, descentralização dos
poderes para as Villae, cristianização da cidade, apogeu e destruição de
Ossónoba.
No século III a.C., altura em que Cartagineses e Romanos lutavam pelo
domínio do Mediterrâneo, Roma invade a Península Ibérica, governando-a
até ao século V d.C. Mais tarde, com as invasões bárbaras, os Visigodos
mantiveram o desenvolvimento da cidade até às invasões árabes, que lhe
alteraria o nome para Santa Maria de Ossónoba.
Ocorre o alargamento, densificação e consolidação do núcleo primitivo
e regressão e densificação dos núcleos extramuros. A invasão árabe da
Península Ibérica inicia-se no ano 711 quando Tarik atravessa o Estreito
de Gibraltar e vence as tropas de Rodrigo na Batalha de Guadalete,
conquistando de seguida a capital dos Godos - Toledo. No ano seguinte,
Mussa Ben Nossair comanda a segunda invasão, conquistando Sevilha e
Ossónoba. Com ele vem um poderoso destacamento de árabes iemenitas,
comandados por Al-Yamani, a quem é entregue o governo da Província de
Ossónoba. A cidade sofre grandes destruições, em virtude também dos
efeitos de vários sismos que ocorreram naquela altura.
A cidade que os Árabes vão reconstruir tem por base a Vila-a-Dentro,
que manterá a sua estrutura fundamental, se bem que densificada,
adquirindo um traçado mais sinuoso - dois eixos, uma circular interior e
uma área central a que correspondia apenas parte do actual Largo da Sé,
mais concretamente, a zona situada entre o edifício da Câmara Municipal
de Faro e a Sé Catedral, já que a restante área era ocupada por
construções. No local do antigo Templum é construída a Mesquita
principal, a uma cota de nível mais elevada (cerca de três metros
acima). Contudo, há investigadores que são da opinião que Óssonoba e
Faro não têm relação nenhuma, sendo duas povoações distintas. Extramuros
opera-se uma regressão urbana dos seus arrabaldes, que se densificam,
mantendo-se os dois núcleos já existentes anteriormente.
A cidade contém, neste período, uma forte comunidade de cristãos e
moçárabes, descendentes dos Romanos e Visigodos, havendo notícia da sua
participação em concílios de Bispos. É provável a manutenção de locais
de culto dedicados a Santa Maria.
No ano 870 eclodiram as revoltas moçárabes no Ocidente do Andaluz. O
partido Muladi, composto por antigos cristãos islamizados, os Moçárabes
(do árabe Nuss-Arabi - meio árabe), com o apoio da comunidade cristã,
toma o poder, tornando-se independente do Emirato de Córdoba, por mais
de 50 anos.
Ao revoltoso Yahia Ben Bakr sucede seu filho Bakr Ben Yahia, que
executa importantes melhoramentos na cidade. Constroem-se as actuais
muralhas, guarnecidas por portas em chapa de ferro, aumentando-se o
perímetro da Vila-a-Dentro. Terá sido nesta altura colocada entre as
ameias a imagem de Santa Maria, como nos canta Afonso X de Castela, o
Rei Sábio. É de crer que neste período a cidade tenha adoptado o nome de
Santa Maria do Ocidente ou simplesmente Santa Maria (Xanta Maria). A
revolta Muladi seria esmagada pelo Califa Abd-Al-Rahman III. Os anos
seguintes são marcados pelo poder do Hajibe Almançor, primeiro Ministro
do Califa Hixame II, que obtém importantes vitórias sobre os cristãos.
A dinastia Omíada de Córdoba cai no ano de 1016, fraccionando-se o
Al-Andaluz em vários principados independentes - os Reinos das Taifas. A
Taifa de Santa Maria é governada por Abu Othman Said Ibn Harun. A
cidade passa a designar-se por Santa Maria Ibn Harun.
Em 1092 o governador da Taifa de Sevilha, Al-Mu'tamid, natural de
Beja e ex-governador de Silves, pede ajuda aos Berbereses de Marrocos
aquando da luta contra as tropas cristãs de Afonso VI de Castela. Yusuf
Ibn Tasfin comanda então a invasão Almorávida, derrota as hostes cristãs
e conquista todos os Reinos das Taifas, unificando-os de novo e
sujeitando-os a Marrocos.
Quando D. Afonso Henriques vence os Almorávidas na batalha de
Ourique, sucedem-se os segundos Reinos das Taifas, com o governo da
família Banu Mozaíne, em Santa Maria Ibn Harun. É durante este período
que Al-Idrissi, geógrafo árabe ao serviço do Rei de Palermo, em visita
de espionagem ao Gharb, descreve a cidade: Santa Maria do Ocidente está
edificada na orla do mar e o mar vem bater nos seus muros. É de tamanho
mediano e muito bonita. Tem uma Mesquita principal e Assembleia de
Notáveis. Pelo seu porto entram e saem navios.
Em 1156 os Almóadas unificam de novo a Península, fazendo a fronteira
regressar ao Vale do Tejo. Seguem-se os terceiros Reinos das Taifas,
prenúncio da reconquista cristã. Poucos vestígios ficaram daquela época,
apesar dos Mouros terem permanecido séculos em Faro. De registar no
entanto neste campo, a introdução de centenas de vocábulos,
especialmente referentes à toponímia e ao comércio, o que prova uma
certa renovação em determinados sectores. Mas, sobretudo, o período
árabe deixou-nos vasta obra literária, principalmente poesia. Citaremos
alguns grandes poetas de Faro desse tempo: Abu Al-Hassan Ibn Harun
(século XI), Ibn Al-Alam Al-Xantamari e Ibn Salih Al-Xantamari (século
XII) e Ibn Al-Murahal (século XIII).